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A teoria da interdependência complexa e a COP 28

  • potentiaassessoria
  • 8 de jan. de 2024
  • 3 min de leitura

​Em 1977, os autores Robert Keohane e Joseph Nye publicaram a obra “Power and Interdependence”, criando as ideias que embasaram a escola de pensamento das relações internacionais conhecida como “Institucionalismo Neoliberal”, que possui como objetivo: explicar por que os Estados cooperam, compreender de onde surge a demanda por instituições e regimes, e avaliar o papel das instituições em moldar o comportamento dos Estados. Por ser uma teoria liberal se entende que as organizações internacionais normatizam a conduta externa dos Estados, fazendo da boa-fé e da transparência entre Estados algo desejável, e que defende a multilateralidade nas decisões interestatais. Assim, o livro defende que existe uma dependência entre os países, no entanto, ela não é traduzida de forma simétrica.


A segunda metade da década de 70 foi marcada pela “deténte” (ou seja, o período caracterizado pela diminuição das tensões causadas pela Guerra Fria). Nesse contexto, a perspectiva de conflito é atenuada e se abre espaço para outras agendas que diferem da agenda tradicional de segurança. Em 1972, ocorreu a mega conferência ambiental de Estocolmo, por exemplo. Ao passo que, dentro desse mesmo contexto, duas instituições importantes à época entram em colapso: o fim do padrão dólar-ouro e os choques do petróleo. A última, por sua vez, escancara a dependência energética dos países desenvolvidos em relação ao combustível. Outra característica essencial deste pensamento é a pluralidade de atores, que pode ser lida como a consequência natural de uma abrangência temática, já que, quanto mais temas, mais atores. Dessa forma, os Estados passam a ouvir mais outros atores (e não apenas os governamentais), necessário para cuidar e tratar de assuntos de novas agendas, que geralmente não possuem uma burocracia especializada. Além de membros da comunidade científica, nota-se a presença também da sociedade civil, representada pelas Organizações Não-Governamentais (ONGs), que dentro desse espaço também fazem o papel de fiscalizadoras das ações do próprio Estado.


Por último, há a relativização do poder militar, que perde o caráter central e absoluto, e cede o lugar para a agenda social, econômica, socioambiental, de desenvolvimento, entre outras. A realidade de interdependência complexa coloca os entes estatais em uma situação de vulnerabilidade, na medida em que as capacidades militares dos Estados não são mais suficientes para dar conta de uma nova realidade conjuntural. Essa vulnerabilidade, ao passo que possibilita a perspectiva de futuro, também estimula a própria cooperação. Evidentemente, a teoria não afirma que a arena internacional seja um ambiente de apenas cooperação, mas que para obter os resultados propostos é necessário manipular os fatores de interdependência. Tais assimetrias são consideradas fontes de poder entre os atores, que na arena global aumentam a complexidade do sistema e tornam o cenário internacional um ambiente de coalizões mais complexas. Países maiores, por exemplo, têm maior potencial de resposta (sensibilidade) em relação aos países menores, e têmmaior possibilidade de influenciar a ação (vulnerabilidade) de outros atores ou organizações no contexto internacional, por isso a probabilidade de ganho e barganha torna-se significativa, em relação aos países menores.


Logo, percebemos as ideias de Keohane e Nye presentes, como no exemplo da COP 28 sendo uma nova agenda e um exemplo de pluralidade de atores no cenário internacional, no qual os entes estatais estão em condição de vulnerabilidade, principalmente no tópico ambiental, que influencia todos. Vale ressaltar que, mesmo sendo um problema de escala mundial, existe uma “desigualdade ambiental”, ou seja, uma exposição diferenciada de grupos sociais a situações de risco ambiental. Podemos também perceber a existência da assimetria entre os Estados, como defendida no institucionalismo neoliberal, numa hipótese onde um país “maior” como os EUA põe um fim no seu uso de combustíveis fósseis, temos um possível potencial de resposta dos outros países que dependem ou são influenciados diretamente por esse.

 

Referências bibliográficas:

 

 

ANTUNES, D. F. A Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares: uma Leitura Neoliberal Institucionalista. RELACult - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura e Sociedade, v. 2, p. 390–407, 31 dez. 2016.

 

FORATO, F. COP28 debate “eliminação” dos combustíveis fósseis. Disponível em:  https://canaltech.com.br/meio-ambiente/cop28-debate-eliminacao-dos-combustiveis-fosseis-272481/. Acesso em: 6 dez. 2023.

 

URBANAS, T. et al. ÁREA TEMÁTICA: CIÊNCIAS SOCIAIS E DESENVOLVIMENTO. [s.l: s.n.]. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/code2011/chamada2011/pdf/area5/area5-artigo21.pdf.

 

 

 
 
 

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