Papel do Mercosul no governo Bolsonaro
- potentiaassessoria
- 16 de set. de 2021
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Texto de Guilherme Hansen Publicado em 16/09/2021
POLITICAR #17: O PAPEL DO MERCOSUL NO GOVERNO BOLSONARO
O Mercado Comum do Sul (Mercosul) é objeto de debate constante na formulação dos eixos e prioridades da Política Externa Brasileira (PEB). Tradicionalmente, desde o desenvolvimento burocrático liderado por Rio Branco no começo do século XX, a agenda comandada pelo Itamaraty é definida como política de Estado e, consequentemente, gere a ação diplomática em função da confiabilidade de expectativas, desenvolvida por meio da continuidade de estratégias. Ainda assim, o governo que está no poder possui mecanismos que influenciam nesse planejamento, uma vez que o presidente atua como agente diplomático, por meio da diplomacia presidencial, bem como seleciona o ministro responsável pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE). Nesse sentido, a mudança de paradigma de governo concretizada por Jair Bolsonaro reflete na posição do Brasil frente ao sistema internacional.
É de conhecimento público, em razão das falas e propagandas políticas, a posição contrária do atual presidente frente aos esforços do governo petista no fortalecimento de conexões com alguns países do continente. Segundo a visão do governo, deveria se praticar uma política externa “desideologizada” e pragmática, optando pela aproximação dos parceiros tradicionais e das grandes potências internacionais, como Estados Unidos e União Europeia.
Hélio Jaguaribe, relevante cientista político brasileiro, foi assertivo quando disse que Brasil e Argentina formam, indiscutivelmente, o eixo de qualquer processo de integração da região. Isso se dá pelo fato de ambos os países, especialmente o Brasil, possuírem uma liderança natural no continente, em razão do tamanho territorial, quantidade populacional e força econômica. É de se imaginar que a postura dos governantes desses países frente ao Mercosul é indispensável para a continuidade e fortalecimento do bloco.
Analisando as falas de importantes figuras da cúpula do governo Bolsonaro, torna-se possível compreender o porquê das atuais relações estarem, no mínimo, enfraquecidas. O presidente é contrário a políticas de reforço ao Mercosul, afirmando em 2017 que “precisamos nos livrar das amarras do Mercosul e partir para o bilateralismo. O Brasil tem autonomia para fazer comércio com o mundo todo!”. Além disso, o ministro da Economia Paulo Guedes já afirmou que “você só negocia com quem tiver inclinações bolivarianas” e que “o Mercosul foi feito totalmente ideológico”. Fica clara a intenção de desvalorizar os esforços regionais em busca de outras posições estratégicas.
De fato, essas posições e políticas do atual governo acarretatam em consequências negativas à exportação de bens do Brasil para os países membros do Mercosul. Segundo os dados disponibilizados pelo Sistema de Estadísticas de Comércio Exterior del MERCOSUR (SECEM), o primeiro ano do governo Bolsonaro, em 2019, apresentou uma balança comercial desfavorável em, aproximadamente, US$ 200 milhões de dólares. Desde 2003 o país não apresentava métricas negativas nas trocas comerciais com seus parceiros do Cone Sul. Além disso, 2019 também correspondeu ao primeiro ano desde de 2009, período de efeitos colaterais da crise financeira mundial de 2008, em que o Brasil exportou menos de US$ 15 bilhões de dólares em bens para o Mercosul.
Portanto, é importante se discutir se o abandono, ou pelo menos enfraquecimento, do Mercosul por parte do governo é favorável para a saúde econômica do país. Parece pouco inteligente, no âmbito estratégico e político, deixar de exercer a liderança natural do Brasil no continente, ao passo que fortaleceria a imagem do país no sistema internacional. A relação com países de menor porte, nisso inclui-se as nações da América do Sul, é fundamental para a autonomia do Brasil, uma vez que expande o leque de oportunidades de negócio. Depender apenas de potências, e da boa vontade das mesmas, é limitar a ação do Brasil e sua perspectiva de crescimento. Não se trata nem de abandonar os negócios com as maiores economias do mundo nem negligenciar os países de menor porte: é preciso equilíbrio e pluralidade de opções para que o país mantenha as rédeas de suas decisões e seu futuro.
FONTES:
SECEM
ESTADÃO




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