Os golpes de Estado na África e o pensamento de Gobineau
- potentiaassessoria
- 4 de dez. de 2023
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Nos últimos três anos, o continente africano testemunhou sete golpes de Estado: no Mali, em 2020, ocorreram dois; na Guiné e no Sudão, em 2021, ocorreu um em cada; em Burkina Faso, em 2022, ocorreu um; no Níger e no Gabão, em 2023, ocorreram um em cada. Por mais que cada país possua sua heterogeneidade, todos sofreram com a colonização europeia, seja por parte do governo britânico como no caso do Sudão, seja por parte do governo francês como no caso dos outros países. Mas o que é, afinal, colonialismo? Segundo o filósofo italiano Norberto Bobbio, em sua obra “Dicionário da Política”, ocolonialismo “indica a doutrina e a prática institucional e política da colonização. Enquanto colonização é o processo de expansão e conquista de colônias, e a submissão, por meio da força ou da superioridade econômica, de territórios habitados por povos diferentes dos da potência colonial, Colonialismo define mais propriamente a organização de sistemas de domínio.” (BOBBIO, 1976, p.181), com as colônias podendo se formar de duas formas: seguindo um modelo de exploração, que busca a extração de recursos e matérias-primas da região colonizada para o império colonizador, ou seguindo um modelo de povoamento, relacionado com o deslocamento de uma massa de colonos para o território a ser colonizado.
O colonialismo está diretamente ligado ao Imperialismo, ou seja, “expansão violenta por parte dos Estados, ou de sistemas políticos análogos, da área territorial da sua influência ou poder direto, e formas de exploração econômica em prejuízo dos Estados ou povos subjugados, geralmente conexas com tais fenômenos.” (BOBBIO, 1976, p.611), e ao Orientalismo, vinculado a uma falsa ideia de globalização que legitima o processo de invasão e opressão do Ocidente sobre o Oriente. O historiador italiano Domenico Losurdo em seu livro “Colonialismo e a Luta Anti-Colonial” descreve: “[…] o colonialismo é sinônimo de pilhagem e de exploração; e implicou guerra, agressão e imposição, em larga escala, de formas de trabalho forçado em detrimento das populações coloniais, mesmo quando se declarou movido pelo intento humanitário de promover a realização da paz perpétua e a abolição da escravidão e mesmo quando alguns expoentes políticos ou alguns ideólogos das grandes potências do Ocidente acreditaram sinceramente em tais boas intenções!” (LOSURDO, 2020).
No campo da Ciência Política, ao abordarmos o tema do colonialismo, nos deparamos com o diplomata e aristocrata francês do século XIX, conde Arthur de Gobineau que tem como uma de suas principais obras o “Ensaio Sobre a Desigualdade das Raças Humanas”, que procurou estabelecer as supostas diferenças que separam as raças humanas (branca, amarela e negra) e inventou, assim, um dos maiores mitos do racismo contemporâneo: o mito ariano (termo usado para referir-se à suposta raça superior: a germânica). Ele acreditava na existência de raças “puras”, com características superiores, que eram desvalorizadas ao se misturarem com “raças inferiores”, até colapsar. Gobineau chegou até a comparar o cérebro do homem nas diferentes etnias, assumindo que havia uma relação entre seu volume e o seu grau de civilização. Classificou cada raça de pior à melhor, usando estereótipos racistas: a raça negra seria a mais inferior, seguido da raça amarela (asiática, polinésia e americana), escrevendo que “O homem amarelo tem pouca energia física e tende à apatia; ele não comete nenhum dos estranhos excessos tão comuns entre os negros. Seus desejos são fracos, sua força de vontade mais obstinada do que violenta...” (GOBINEAU, 1853). Ao classificar os brancos como a raça superior, os descreve como “corajosos e ideais”, e com “uma maior potência física, um extraordinário instinto de ordem, não apenas como garantia de paz e tranquilidade, mas como meio indispensável de autopreservação. Ao mesmo tempo, eles têm um amor notável e até extremo pela liberdade...” (GOBINEAU, 1853).
Por mais que Gobineau jamais tenha figurado qualquer solução política para o problema das raças, teve seu pensamento utilizado como base para pensamentos racistas colonialistas e imperialistas, como os contidos na colonização dos países do continente africano citados anteriormente, embasando a ideia de que os colonizadores eram superiores aos colonos e que necessitavam destes para se desenvolver economicamente, politicamente e culturalmente. Dessa forma, fica evidente que os movimentos de golpe de estado citados têm influência direta do colonialismo europeu, visto que são movimentos que enxergam seus antigos colonizadores como uma ameaça. Por exemplo, no caso nigeriano, o novo governo do general Abdourahamane Tchiani revogou toda a cooperação militar com a França, expulsando 1.500 soldados franceses do país, assim como ocorreu em Burkina Faso e no Mali.
Referências Bibliográficas:
Sete golpes de Estado em três anos na África; relembre. Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/noticia/2023/08/30/sete-golpes-de-estado-em-tres-anos-na-africa-relembre.ghtml>. Acesso em: 19 set. 2023.
O que é Colonialismo? | Laboratório de Estudos em História do Mundo Árabe e Islã. Disponível em: <https://sites.unipampa.edu.br/lehmai/o-que-e-colonialismo/#:~:text=O%20termo%20Colonialismo%20pode%20ser>.
A deturpação da crítica de Arthur de Gobineau à miscigenação - 26/02/2017 - Ilustríssima. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/02/1861719-a-detrurpacao-da-critica-de-arthur-de-gobineau-a-miscigenacao.shtml>. Acesso em: 3 out. 2023.
DOS, C. Essai sur l’inégalité des races humaines. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Essai_sur_l%27in%C3%A9galit%C3%A9_des_races_humaines>. Acesso em: 3 out. 2023.
Análise: o que está acontecendo no Níger não é um golpe típico. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2023/08/16/analise-o-que-esta-acontecendo-no-niger-nao-e-um-golpe-tipico>.
BOBBIO, N. et al. Dicionário de política. Brasília: Unb, 2007.




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