Insegurança alimentar e fome no Brasil
- potentiaassessoria
- 9 de dez. de 2021
- 3 min de leitura
POLITICAR #23: INSEGURANÇA ALIMENTAR E FOME NO BRASIL
Texto de Lara Germano Publicado em 09/12/2021
A desigualdade e exploração social sempre foram constantes na construção e consolidação da sociedade e contribuem para a presença da fome e da insegurança alimentar no processo histórico e estrutural do Brasil. Entretanto, apesar da presença da fome desde o período colonial, os primeiros estudos sistematizados sobre a fome, desnutrição e insegurança alimentar, dentre outros assuntos relacionados, só surgiram no século XIX e ganham destaque apenas no século XX, durante a Era Vargas. No entanto, o esforço, nos últimos anos, realizado para garantir uma alimentação básica no país para toda a população não parece ser suficiente.
Um dos estudos mais recentes, relevantes e chocantes sobre a fome no Brasil foi realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), em dezembro de 2020. Segundo o estudo, o número aproximado de pessoas em situação de fome era de 19,1 milhões de cidadãos. Isso indica um aumento de nove milhões de pessoas no período de dois anos. Além disso, os dados afirmam também sobre cerca de 116,8 milhões cidadãos – mais da metade da população total do Brasil – possuir algum tipo de insegurança alimentar. Desses 52% da população, 43,4 milhões não contavam com alimentos em quantidade suficiente, caracterizando insegurança alimentar moderada ou grave, e 19,1 milhões estavam passando fome (insegurança alimentar grave).
A fim de esclarecimentos, faz-se importante diferenciar os termos. O termo insegurança alimentar se refere ao acesso escasso a alimentos em quantidade e qualidade adequada e pode ser classificada em três tipos: leve, moderada e grave. Ademais, embora considerado um eufemismo para fome, a insegurança alimentar é um conceito mais amplo que abrange a questão do direito a alimentação de forma mais completa, pois refere-se também a chamada fome oculta, ou seja, quando o indivíduo não consome todos os nutrientes necessários por conta de questões socioeconômicas. Por sua vez, o termo fome, relacionada também a fome crônica, é utilizado para retratar exatamente a situação de irregularidade e inconstância na alimentação.
Porém, independente do termo, a descrição completa do que é a fome, de fato, é impossível de ser verbalizada. A autora Maria Carolina de Jesus, em seu livro “Quarto de Despejo”, tenta, dia após dia, descrever, dolorosamente, o seu cotidiano como catadora de papelão e moradora da Favela do Canindé, em São Paulo. “A fome é um soco no estômago” e “doí muito”, afirmam os relatos da mãe solo, que durante repetidas vezes, viu a sopa de ossos como sua única opção de alimento. A mesma sopa de ossos que voltou a ser destaque na mídia nos últimos meses. Essa é apenas uma das milhões de histórias, antigas e atuais, que fazem parte do Brasil.
Logo, é óbvia a relação intrínseca da fome com a situação econômica das famílias. Ser pobre no Brasil, recorrentemente, é sinônimo de não ter direitos básicos, como a garantia de alimentos necessários para a sua sobrevivência. Posto isso, destaca-se ainda como a concentração de renda é uma das bases de sustentação da estrutura socioeconômica que promove a fome no Brasil. Pois é absurdo um país que, ao mesmo tempo que possui 52% de sua população com insegurança alimentar e 19,1 milhões de cidadãos com fome, ser um dos maiores produtores agrícolas do mundo.
Em resumo, a luta contra a fome deve ser baseada, principalmente, em políticas governamentais de redistribuição de renda, já que é nítido que o que impede o alimento produzido, em território nacional, chegar na mesa dos cidadãos marginalizados é a presença da desigualdade social. A promoção deste debate em áreas comuns e políticas, com ênfase na exploração social e econômica, é crucial para a melhora na qualidade de vida, assim como foi iniciado na última série de políticas sociais aplicadas no Brasil.
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