A crise de 2008 e o redesenho do capitalismo
- potentiaassessoria
- 21 de out. de 2021
- 3 min de leitura
POLITICAR #20: O NOVO CAPITALISMO
Texto de Shamira Rossi Publicado em 21/10/2021
A extrema integração do sistema financeiro global nos anos anteriores à 2008 foi a grande responsável para o surgimento de um cenário de crise. Nesse sentido, a Crise de 2008, também conhecida como crise dos subprimes foi ocasionada pelo desequilíbrio de um setor minúsculo e singular que é o setor imobiliário. Em tese, o descompasso ocorrido nessa parte da economia estadunidense não deveria colocar em xeque toda a organização capitalista global. Porém, a experiência vivida em 2008 provou-se extremamente propagável globalmente tendo consequências como o aumento da desnutrição mundial em 11%, por exemplo. A crise não só foi desnecessária como também evitável e, a hegemonia neoliberal possui grande influência em todo o processo de construção de um cenário propício à crise. Sendo assim, culpar o setor imobiliário por uma crise global é uma postura minimamente equivocada. A Crise de 2008 deve ser entendida como um processo, iniciado com a desregulação dos mercados financeiros e as especulações quase proféticas, fruto do capitalismo financeirizado. A partir disso, surge a necessidade de desenharmos um novo capitalismo, aquele que tenha em seu escopo o objetivo de romper com os vícios que levaram às crises globais, sobretudo, a crise imobiliária apresentada neste texto. Sendo assim, regular o mercado financeiro volta a ser uma premissa básica para se garantir o desenvolvimento mais seguro possível, se é que podemos falar de segurança no neoliberalismo. As projeções feitas por Bresser Pereira, ainda em 2009, descrevem o novo capitalismo como um sistema em que há continuidade da globalização, com aumento de desigualdade de renda nos países ricos, maior acesso ao nível superior, ideologia meritocrática como forte influência no pensamento da sociedade e, principalmente, apresentará diminuição da instabilidade econômica. O último ponto é projetado pelo economista com cautela, pois o capitalismo é intrinsecamente instável, porém em seu novo formato apresentará menor grau de flutuação. Não significa que o neoliberalismo não estará suscetível às crises, porém, a financeirização, antes existente, distorcia o arranjo financeiro e estimulava o crescimento de uma riqueza financeira artificial desligada da riqueza real de um país. Estamos em 2021 e meu objetivo será comparar as projeções acerca do “novo capitalismo” e a realidade vivenciada nesse período de aproximadamente 12 anos. Primeiramente, é notório que a globalização é intensificada dia após dia diante das inovações tecnológicas tão presentes em nosso cotidiano. Estamos em um mundo cada vez mais conectado e, ao mesmo tempo, dependente da tecnologia para as relações comerciais, diplomáticas e da comunicação em geral. Além disso, o aumento do número de alunos no ensino superior também é uma realidade. Nesse sentido, desde 2009, o número de matriculados no nível superior no Brasil cresceu cerca de 44%, segundo pesquisa realizada pelo INEP em 2020. A situação global de alunos no ensino superior não é diferente, tem aumentado diante do cenário de maior oferta e acesso à informação, do surgimento das modalidades digitais e, sobretudo, do crescimento da oferta de cursos e universidades. Entretanto, o Brasil persiste abaixo do padrão mundial de alunos cursando o nível superior. Segundo pesquisa do IBGE, apenas 32,7% dos jovens entre 18 e 24 anos estudam no Brasil. A ideologia meritocrática parece fazer cada vez mais parte do pensamento social. É comum escutarmos sobre casos de pessoas que diante da pobreza e miséria se levantaram e ergueram um império. Os exemplos são dos mais variados possíveis, desde ex catadores de lixo que se tornam médicos formados por universidades renomadas, até moradores de comunidades carentes que se tornam astros do esporte. A meritocracia não é um assunto novo, está presente na cultura ocidental desde o início da hegemonia cristã. Quem não se lembra de José sendo vendido como escravo pelos próprios irmãos e, mesmo diante desse grande obstáculo, é capaz de mostrar suas virtudes ao faraó? José se torna um homem de confiança, o que hoje traduziríamos como um bem-sucedido que correu atrás dos seus sonhos. Ainda é cedo para afirmarmos que o novo capitalismo apresenta menor grau de flutuação, mas ainda assim, é possível percebermos que a regulação dos mercados financeiros traz maior autonomia econômica aos países. A ideia é não permitir que novamente uma crise isolada se torne um problema global, que pessoas de todo o mundo sejam colocadas na miséria e passem a sofrer com a insegurança alimentar. Sendo assim, falar de segurança no neoliberalismo pode parecer antagônico, porém enquanto este vigorar, teremos de buscar cada vez mais políticas públicas que assegurem a alimentação da população a fim de evitar que as consequências fatais da crise se repitam.




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